Ringo, o injustiçado

Para muitos bateristas, Ringo era um talento pouco reconhecido nos Beatles


Eu me tornei baterista porque era a única coisa que eu podia fazer. Mas sempre que ouço outro baterista, sei que não sou bom. (Ringo Starr)

Será que era esta modéstia, esta humildade e o fato de não se levar muito a sério que faziam com que muitas pessoas também o menosprezassem?

Outra frase que pincei por aí foi do fenomenal baterista Mike Portnoy, ex-Dream Theater: “Ringo era um baterista bem básico.” OK. Mas, como também sou do “ramo”, tomo a liberdade de afirmar que ser básico não significa ser ruim ou limitado… O sr. Starkey era considerado um “reloginho”, sempre no tempo, preciso, discreto, nunca correndo, jamais desacelerando, mantendo o andamento que a música “pedia”, “colocando” na canção exatamente o que ela lhe “solicitava”, sem manobras excessivas, desnecessárias… Se não precisava de uma virada ali, por que dá-la, pra que fazê-la?… Só pra mostrar que sabe, que é bom, que é “o cara”?… Isto não funcionava com aquele inglês, hoje com 75 anos… E vale lembrar que, naqueles shows, na década de 60, ele raramente tinha um monitor de retorno, muito menos fones de ouvido pra “receber” o que o resto da banda tocava…

Perguntem a Sir Paul em quem ele confiava mesmo, com quem ele tocava e cantava sem ficar inseguro, sem ter que olhar pra trás a toda hora, preocupado se o sujeito das baquetas erraria ou não… O baixista já cansou de dar entrevistas dizendo que “Ringo é de extrema confiança”…

E será mesmo que “gênios” como Harrison, Lennon e McCartney se juntariam – e tocariam, em estúdios e em shows ao vivo, durante oito anos! – a um baterista ruim ou limitado?

Sem contar os grandes músicos que já tocaram ao lado dele em suas famosas “All-Starr Bands” mundo afora… Cantores e/ou instrumentistas do “calibre” – consagradíssimos, dispensam apresentações – dos baixistas Jack Bruce (Cream) e Rick Danko (The Band), dos bateristas Simon Kirk (Free e Bad Company), Jim Keltner, Greg Bissonette e Levon Helm (The Band), dos tecladistas Billy Preston (praticamente, um “quinto Beatle” no fim da carreira do quarteto de Liverpool), dos guitarristas Peter Frampton, Joe Walsh (Eagles) e Todd Rundgren (da “clássica” ‘I saw the light’), do “multi” Edgar Winter, do saxofonista e percussionista Mark Rivera e de tantos outros… E nem vou citar o filho dele, Zak Starkey (Oasis, The Who), outro tremendo ás das baquetas…

De vez em quando, algumas (ou seriam muitas?) pessoas começam a “esculhambar” o sr. Richard Starkey – aliás, já é até praxe, mesmo sem conhecerem direito a obra, o talento e a contribuição dele nos “Fab Four”, como, por exemplo, nos álbuns Branco e Sgt. Pepper’s… Já ouvi, inclusive, a seguinte “pérola”: “Ringo que nada, quem gravava muitas músicas dos Beatles era outro baterista, muito melhor do que ele!”… Fica parecendo que ele “comprou um lugar” na banda… E lembro que quem costuma fazer isto é piloto de Fórmula-1, levando patrocínios e garantindo um “cockpit” numa equipe… Ringo jamais teve que fazer isto pra entrar no Quarteto de Liverpool, ele foi chamado, convidado – substituiria o demitido Pete Best -, até porque, naquela época (por volta de 1962), já era baterista profissional (tocava no “Rory Storm and the Hurricanes”)…

E quanto aos arranjos que ele criou/inventou – detalhe importante: 50 anos atrás! – pra clássicos como “Ticket to ride”, “Come together”, “In my life”, entre tantos outros?… Eram linhas de bateria ousadas, criativas, de vanguarda e de difícil execução, muito avançadas pra aquela época… e que foram imitadas à exaustão e serviram de inspiração pra muitos outros bateristas…

E por que será que costumam “poupar” Charlie Watts, dos Stones, que, apesar de preciso e confiável, e de ser outra “maquininha”, outra “engrenagem de relógio suíço”, também está longe de ser considerado um virtuose do instrumento?… Ele usa uma bateria tão pequena quanto à do Ringo e não é de ficar fazendo grandes “firulas” – algumas até desnecessárias, exageradas, como estou cansado de ver por aí – com as baquetas… Ainda assim, quase não vejo menosprezarem-no… E olhem que o batera de Jagger & Cia. não canta, não abre a boca nos shows, nem tem microfone pra ele!… E, por favor, não venham me dizer que é fácil cantar e tocar bateria ao mesmo tempo…

Também costumam dizer que os shows de Paul McCartney são pra lá de emocionantes… Afinal de contas, é um Beatle ali, gente!… Concordo, lógico… E pude comprovar isto in loco, no show dele na HSBC Arena, aqui no Rio, em 2014… Mas, na minha modestíssima opinião, o do Ringo, em 2011, também aqui no Rio (Citibank Hall), nada ficou devendo em emoção ao do ex-companheiro… A ponto de, lá pelas tantas do espetáculo, meu filho João (também baterista, fã do sr. Starkey e, na época, com apenas dez aninhos) ter me saído com esta: “Papai, estou com um pouco de dor de cabeça, vou ali fora rapidinho, tá?”… Concordei. Ele saiu com a mãe, continuei lá, “de prontidão”, com minha filha… Pouquíssimo tempo depois, volta ele, em lágrimas… “Não era dor de cabeça, não, Papai, desculpe, é que eu fiquei emocionado ouvindo ‘Photograph'”… Pode isto?… Como explicar?… Sei lá… Aliás e a propósito, esta canção é uma das mais belas do amigo George Harrison, que praticamente lhe deu de presente…

E, pra terminar este meu artigo, outra frase que pincei por aí: “Estou me sentindo privilegiado por ainda estar em vivo.” (Ringo Starr, sem data)

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