A incrível história de Celso Blues Boy no Rio Rock & Blues Festival 2010

Organizadores fizeram crowdfunding inédito na hora para músico subir no palco


por Luis Claudio Ávila Barbosa*

Querido, não sei o que é doc, não acesso a minha conta, nem sei em que banco é. (Celso Blues Boy)

Acho que foi algum tipo de transmissão de pensamento. Lia empolgado a escalação do 2º Rio Rock & Blues Festival e lembrava das sensacionais histórias que envolveram os bastidores da 1ª edição, num já longínquo 2010, quando pipocou na tela um aviso de mensagem do meu amigo Marcelo. “Luis, topa escrever alguma coisa sobre suas lembranças do primeiro festival?”. Topei na hora, claro. E na hora também me vieram as recordações daquela experiência fantástica como um dos produtores do evento. O contato com os músicos, parceiros, patrocinadores, as negociações às vezes complicadas com os gringos, a satisfação de ver subir ao palco aquele músico com quem você começou a trocar e-mails meses antes… Enfim, ver o sonho se tornar realidade.

São incontáveis as memórias, mas não teria como escrever sobre outra passagem que não fosse a que envolveu o mitológico Celso Blues Boy, o nosso maior bluesman. Ele encerraria a mais concorrida – como não poderia deixar de ser – noite da primeira edição. Digo “encerraria” porque quando cheguei ao RRBC já lotado, percebi um ar de preocupação no semblante normalmente sereno do meu amigo e parceiro de produção Leonardo Quintella. – Fala, Léo, beleza? – Beleza nada, Luis, o Celso disse que não entra no palco se o agente dele não ligar autorizando. – Mas como assim, Léo? O cara sumiu? – Não, Luis, é que fizemos um doc hoje para o pagamento antecipado do cachê dele, mas como ainda não compensou, ele nem quer saber de comprovante de transação, de nada. Só entra no palco se o agente dele ligar dando o OK. E como o dinheiro aparece no extrato como ‘bloqueado’, nada feito.

Putz.

– E cadê o Celso? – Está no escritório com o Marcelo. – Então vamos lá, vou chamar o meu pai, que é um cara tranquilo e vai ajudar a convencê-lo.

Nisso, a casa de cheia passara ao estágio de lotada. Todo mundo naquele clima de “cadê o Celso?”. Entramos no escritório onde o Blues Boy conversava placidamente com o Marcelo, sua inconfundível Fender, praticamente a única guitarra que usou na vida, recostada no sofá. Éramos cinco na sala: Celso, Marcelo, eu, Léo e meu pai, Claudio Barbosa. Cinco das pessoas mais tranquilas e serenas que já conheci. E, serenamente, a tentativa de convencimento começou. “Celso, o depósito foi feito, o dinheiro está na conta, só está bloqueado porque foi feito um doc, amanhã estará disponível” ponderou alguém, não me lembro se o Marcelo ou meu pai. E o Celso na maior calma e educação do mundo: “Querido, não sei o que é doc, não acesso a minha conta, nem sei em que banco é. Só sei que depois de levar uma porrada de calotes, inclusive de meus próprios agentes, resolvi eleger uma pessoa de inteira confiança para cuidar da minha grana. E só entro no palco se ele me ligar e der o ok. Confio totalmente em vocês, sei que são pessoas do bem, mas é uma questão de cumprir uma promessa que fiz a mim mesmo. Um princípio.”

E agora? Não tinha jeito: para o cara tocar, só se pagássemos em dinheiro, já era tarde e não seria possível sacar esse valor de uma vez só, por conta daquela limitação de valor após as 22h. Não me lembro o valor exato do cachê do Celso na época, mas não era, definitivamente, algo que alguém levaria no bolso para ir a um show de Blues na Lapa. Saí meio transtornado e minha mulher Juliana, me vendo naquele estado de nervos, perguntou o que tinha acontecido. Contei a ela e, com toda a objetividade e foco que Deus a deu, veio com a solução: “só tem uma saída: vamos fazer uma ‘vaquinha’ com as pessoas que conhecemos, quem não tiver dinheiro na mão a gente pega o cartão, a senha, vai num 24h e saca um pouco de cada conta e segunda-feira ressarcimos todo mundo. Vai ser um ‘mico’, mas ‘mico’ maior é não ter show. Você quer subir naquele palco e dizer que o Celso Blues Boy não vai tocar porque o doc não caiu na conta? Eu não.” E assim foi feito. Acreditem se quiserem, capitaneados pela Juliana, corremos a sacolinha, rodamos incontáveis caixas 24h e conseguimos, PASMEM, juntar a grana do cachê ali, com músicos no camarim e casa lotada, numa verdadeira ação entre amigos.

A essa altura o show já estava bem atrasado, o pessoal que não sabia de nada estava pra lá de ansioso, o clima de ansiedade “boa” já quase descambava para uma certa tensão. Foi quando o Celso, dinheiro do cachê no bolso, subiu ao palco. Precisa dizer que ele fez um show absolutamente antológico? Pois é. E o que a Juliana me disse lá, na hora da tensão total diante do risco do show não acontecer, de profecia virou realidade: “relaxa que vai dar tudo certo e um dia a gente ainda vai rir disso tudo.” Não deu outra.

Saudade daquela primeira edição do Rio Rock & Blues Festival, lá se vão quase 7 anos. Saudade do Celso, lá se vão quase 5. Mas aumenta que isso aí é rock ‘n’ roll, o expresso da noite não pode parar e sua estrela marginal sempre brilhará, mestre.

*O autor foi um dos organizadores do Rio Rock & Blues Festival 2010

2 comentários em “A incrível história de Celso Blues Boy no Rio Rock & Blues Festival 2010

  • 20/01/2017 em 02:27
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    História saborosa!

  • 08/08/2017 em 18:46
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    sensacional!

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