O que está acontecendo com a música?

Mercado implodindo, rádios fechando e o futuro incerto para quem produz e gosta de música de qualidade


por Marcelo Reis*

Ídolos morrendo deixando uma lacuna sem preenchimento, rádios fechando e uma produção cultural de péssimo nível dominando o mainstream que ainda resta. Afinal o que está acontecendo com a música? Ou melhor dizendo, com a música de qualidade?

Para explicar isso em primeiro lugar é preciso reconhecer que minha geração já faz parte do passado. É duro aceitar isso porque quem nasceu nos anos 60, na época de ouro da música pop e do rock, foi revolucionário e lutou para mudar costumes, sempre acreditou que seria jovem para sempre. Sim, eu acredito que ainda sou jovem, a minha alma é jovem, mas o mundo mudou e como acontece com todos que envelhecem, eu continuo acreditando que as coisas eram melhores antigamente.

Todas as minhas referências, todas as minhas lembranças agradáveis ligadas à música são de uma época em que as rádios tocavam os lançamentos musicais e, se eles viravam sucesso, iam para a televisão em algum programa de auditório ou no Globo de Ouro. Poderiam ser trilha sonora de novela. Sim, a Somlivre ganhava milhões com a venda dos discos com as trilhas das novelas. Enfim, o mercado da música era composto por uma cadeia gigante de empresas e negócios interligados que tinham como sustentação básica a venda de discos!

Tudo começava com uma gravadora que, acima de tudo, possuía cacife para investir dinheiro em algum artista que ela julgava ter potencial de estourar. Então, ela colocava a máquina para funcionar: gravava e prensava o disco, distribuía para as lojas, os divulgadores levavam nas rádios, às vezes pagavam para executar maciçamente, os jornalistas faziam resenhas sobre o disco, os programas de auditório convidavam os artistas para participar, pois a audiência seria certa, a música estourava e o público ia na loja comprar o disco. As gravadoras então recuperavam todo o seu investimento e, diga-se de passagem, com muito lucro!

Mas a cadeia não parava por ai, uma vez estourado, o artista vendia shows que lotavam diversas casas e espaços pelo país, alimentando dessa forma uma outra ponta dessa enorme cadeia de negócios. O resultado foi criar uma memória afetiva enorme em todas as pessoas que viveram essa época, inclusive eu. Sim, como não lembrar desses artistas que essa indústria transformou em ídolos?

O curioso é que não havia garantia que eles produziam música de qualidade. Sim, meus amigos, o mainstream sempre foi repleto de porcarias, de produtos com apelo puramente popular, da mesma forma que acontece hoje. Então, o grande problema que a música vive atualmente não é a perda de qualidade, mas sim a perda de sustentabilidade econômica.

A venda de discos bancava um mercado pulsante que empregava milhões de pessoas em diversas áreas e atividades. Entre os diversos beneficiados, evidentemente, estavam os músicos. Sempre foi difícil viver de música, mas no momento em que você estourava, virava um ídolo e poderia ganhar muito dinheiro. Você até poderia parar de trabalhar e viver apenas dos direitos autorais de reprodução das suas obras.

O que acontece hoje é que ninguém compra mais música. A música se tornou um brinde que você ganha ao comprar um celular, ao entrar em alguma operadora de telefonia, ao se inscrever em algum site de música na Internet. A enorme indústria da música perdeu a sua principal fonte de receita: a venda dos discos.

Não existe mais indústria da música. Por que nós iríamos fazer um disco novo? (Roger Daltrey – The Who)

Os discos não têm substituição. Vender uma música pela Internet não é a mesma coisa do que vender um disco. Apesar do produto contido ser o mesmo – uma música – a mídia não é, e isso faz toda a diferença na forma como se consome música atualmente. Um disco você guardava na prateleira da sua estante. Ele dividia com os livros impressos um certo status cultural e de prestígio. Ter muitos discos mostrava que você era uma pessoa culta. Guardar uma música no seu computador ou na nuvem não tem a mesma conotação. Essa mudança de “mídia” fez com que a música se tornasse muito volátil, ao ponto de perder valor.

Por fim, a forma de divulgar música também mudou profundamente. Com o advento da internet e das redes sociais, esses passaram a ser os canais principais. Quando você vê que os relatórios de publicidade e descobre que o Facebook já figura como uma das mídias onde mais se investe em propaganda no mundo você se dá conta de como tudo mudou. O problema do facebook é que ele não tem filtro e reflete diretamente a alma das pessoas. Antes havia alguém pra dizer “olha, isso é bom!”. Hoje não tem. E o impulso das pessoas é compartilhar muito mais bobagens e “piadas” do que compartilhar cultura.

O final dessa história não será muito bom para aqueles que efetivamente pretendem produzir e viver de música de qualidade, bem cuidada, que exija talento e se propõe a transmitir algum sentimento ou mensagem mais profunda. Como eu disse no início, porcarias sempre existiram no mainstream, mas era economicamente viável produzir música de qualidade, pois havia quem comprasse e como recuperar o investimento. Hoje não é mais. Em um breve futuro, produzir música de qualidade continuará sendo viável apenas por paixão.

O que falta a gente reconhecer e aceitar é que o mundo em que vivemos os nossos vinte e poucos anos não era melhor do que o atual. Ele simplesmente é diferente. Não adianta você querer que todos os jovens hoje entendam o prazer que era ouvir um disco na vitrola. A maioria simplesmente não sabe o que é isso. Já nasceu ouvindo música no computador ou no smartphone e, diga-se de passagem, de péssima qualidade de áudio e conteúdo.

Resumindo, toda tecnologia que veio trazer mais qualidade, na verdade, trouxe apenas praticidade, mais pirataria e compartilhamento sem pagamento de royalties, depreciando a música e o mercado. Nesses tempos de internet, quem ganha dinheiro não são mais as gravadoras, nem as rádios, nem as lojas de discos e nem os músicos. Quem ganha dinheiro mesmo são os desenvolvedores dos softwares e as plataformas que disponibilizam as músicas na rede.

*O autor é empresário, músico e fundador do Rio Rock & Blues Club

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