Quem disse que carnaval é samba?

Vários empreendimentos continuam com suas agendas roqueiras para não deixar nenhum folião triste


por Marcelo Reis*

No mês de fevereiro, a maioria dos roqueiros já se começa a se coçar. A perspectiva da cidade ser tomada pelo samba (ritmo que os mais radicais odeiam) vira um pesadelo. Blocos desfilando por todas as ruas com sons estridentes e, na maioria das vezes, de péssima qualidade, transformam o Rio de Janeiro em um verdadeiro inferno para os puristas do rock.

Mas, espera ai, quem foi que disse que carnaval é samba?

Carnaval não é sinônimo de samba e muito menos este pode ser considerado o seu ritmo oficial. O Carnaval é uma palavra do latim que significa “retirar a carne”.  A festa teve origem após a implantação da Semana Santa, pela igreja católica, no século XI. A doutrina cristã estabeleceu que os fiéis fizessem um  jejum de carne durante 40 dias até a data em que se celebra a morte e ressurreição de Cristo. Esse período é chamado Quaresma.  O objetivo era que os fiéis fizessem uma purificação de suas “almas” e “corpos” para se prepararem para a Paixão de Cristo.

O carnaval, portanto, é uma festa que significa uma espécie de “despedida” dos prazeres mundanos. É como se as pessoas dissessem “Opa, peraê… vou ficar 40 dias de privações? Então deixa eu aproveitar tudo que posso antes… hehehe…”. Por isso, apesar do carnaval significar a abstinência da carne, a festa é conhecida como a “festa da carne”, onde se pode tudo e rola muita promiscuidade.

Na Wikipédia você vai ver que o carnaval na antiguidade era marcado por grandes festas, onde se comia, bebia e se buscava incessantemente realizar todos os prazeres. O Carnaval prolongava-se por sete dias nas ruas, praças e casas da Antiga Roma, de 17 a 23 de dezembro. Todas as atividades e negócios eram suspensos neste período, os escravos ganhavam liberdade temporária para fazer o que quisessem e as restrições morais eram relaxadas.

No período do Renascimento as festas passaram a contar com desfiles de carros alegóricos pelas ruas e o uso de máscaras e fantasias. As máscaras eram uma forma de ocultar a identidade da pessoa (sim, eu vou fazer de tudo, mas não quero que ninguém saiba quem eu sou!), e o uso da fantasia uma forma de liberar o “alterego” do indivíduo.

Foi em Paris que surgiu o carnaval como conhecemos. O termo Mardi Gras, significa terça-feira gorda, ou seja “aproveite meu amigo, que esse é seu último dia de farra”.

Mas onde o samba entra nessa história?

Na verdade, cada lugar adota a música mais popular para “embalar” os dias de folia sem limites. Por isso, no Brasil, e especialmente no Rio de Janeiro, o samba se tornou o ritmo da festa. Mas isso não é obrigatório. Se você não gosta de samba, pode perfeitamente entrar no espírito do carnaval e, como dizem, soltar o freio de mão na ladeira, ouvindo o ritmo que você gosta.

Felizmente, existem opções pra isso na cidade. Vários bares de rock preservam sua tradição e continuam apresentando shows e tocando o estilo durante a festa, exercendo o papel de “resistência” ao domínio do samba. Um deles é o Duk Walk, na rua Ceará, na Praça da Bandeira, que se mantém aberto durante esse período.  Na mesma rua funciona o famoso Heavy Duty, que também mantém sua tradição roqueira. O Bukowski, em Botafogo, acaba de criar o seu bloco que vai desfilar pelas ruas do bairro tocando rock´n roll.

Parabéns a todos esses empreendimentos que, de forma corajosa, tentam remar contra a maré e fazer com que o carnaval seja uma festa verdadeiramente democrática, que proporcione um período de prazer para todos, mesmo para aqueles que não gostam de samba!

*O autor é fundador do Rio Rock & Blues Club e já “pulou” muito carnaval!

 

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