Credibilidade zero

Festivais oferecem inclusão no line up para bandas desconhecidas em troca de patrocínio


Muita gente pergunta, “mas que raio de line up é esse?”, “que banda é essa que eu nunca ouvi falar?”. Esses questionamentos são cada vez mais comuns por parte do público que assiste os grandes festivais de música e espera encontrar grandes atrações e o que merece destaque na cena musical. Mas os critérios de seleção nem sempre cumprem essa finalidade. Hoje, uma banda desconhecida pode tocar em um grande festival, desde que tenha dinheiro para pagar.

Recentemente, a banda paulistana Doctor Pheabes conseguiu uma façanha para uma banda desconhecida, tocar tanto no Lollapalooza quanto no Rock in Rio, e a explicação parece simples: os integrantes da Doctor Pheabes são donos da operadora de saúde Prevent Senior, que patrocina festivais.

Sem nenhum constrangimento, o vocalista Eduardo Parrilo, que é dono da operadora junto com o irmão Fernando Parrilo, admite publicamente que existe uma troca de interesses. Brincar de superstar do rock parece ser o divertimento preferido dos dois empresários que não negam que pagam para tocar em grandes eventos e abrir shows de grandes bandas de rock.

A grosso modo não há nada errado com a estratégia dos irmãos Parrilo para divulgarem sua banda. Essa é uma forma conhecida de abrir espaço e mostrar o trabalho. O erro está nos festivais fecharem seus line ups abrindo espaço para esse tipo de contrapartida.

Na teoria, todo festival tem um processo seletivo rigoroso que leva em conta a música em primeiro lugar, mas os interesses econômicos falam mais alto e, por isso, a maioria dos line ups em grandes festivais tem sido sofrível sob o ponto de vista musical. O Lollapalooza desse ano foi muito criticado e o line up do Rock in Rio até agora também.

Há muito os festivais deixaram de ser eventos para reunir bandas e artistas que, de fato, estão se destacando, ou fazem parte da história da música. O line up, na maioria das vezes, possui alguns poucos artistas âncoras de prestigio e o resto é preenchido conforme interesses comerciais.

Festivais como nos anos 60 e 70, que reuniam efetivamente a nata da música do momento, parece que não existem mais. O primeiro Rock in Rio foi um sonho idealista do Roberto Medina, mas, a marca também parece ter virado um produto comercial que pode ser comprado por alguem que dê boa contrapartida.

Por essas e por outras é fácil entender por que a música está tão ruim hoje em dia, afinal, os festivais de “música”, que sempre tiveram como objetivo mostrar o melhor da música, deixaram de ser isso há muito tempo e hoje são apenas produtos comerciais de entretenimento que contribuem muito pouco para o desenvolvimento musical propriamente dito.

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