Rock e política

Ritmo que começou falando apenas de amor se tornou um dos mais poderosos instrumentos de ativismo político


Ao longo dos seus 60 anos de vida o rock se politizou, e muito. O detalhe é que ele não tem ideologia definida. Ele serve para qualquer causa. Ele pode tanto combater um regime totalitário de direita quanto um de esquerda. Na verdade, o que o rock representa é a busca da liberdade e ruptura com algum status quo vigente que, de alguma forma, cause repressão. Foi assim desde o seu nascimento e continua sendo até hoje.

Em meados de 1950 quando o hit Rock Around the Clock, de Bill Haley, chegou ao topo das paradas de sucesso, sendo o primeiro rock da história a alcançar esse feito, as letras refletiam apenas o desejo dos jovens de terem liberdade, dançar e se divertirem a noite toda. A sociedade daquela época ainda era patriarcal e o desejo da juventude de mais liberdade era latente.

Mas, não era só isso que os jovens desejavam. Eles também queriam mais liberdade sexual e o direito de fazerem com seus corpos o que bem desejassem. Elvis Presley percebeu isso e se tornou um mito. O primeiro ídolo a unir o rock com a sensualidade. Seu jeito de dançar era capaz de levar as fãs à loucura numa época em que um homem mexer os quadris para frente e para trás em público era quase um ato sexual explícito.

Nos anos 60, os Beatles também levavam as fãs à loucura com uma aparência de bons moços, mas um comportamento irreverente e libertário. Fumaram maconha nas dependências do palácio da Rainha, faziam piadas com a imprensa, entre outras transgressões. Experimentar e transgredir se tornaram os verbos preferidos dos jovens roqueiros do início dos anos 60. Então, depois dos Beatles, vieram bandas que fizeram os Beatles parecerem apenas garotos de família. Rolling Stones, The Doors e muitas outras levaram o princípio da transgressão aos limites da época.

Mas, até esse momento, as letras de rock falavam basicamente de amor, sexo e da vontade de se divertir, entretanto, a partir da segunda metade dos anos 60 houve uma mudança de comportamento. Os jovens passaram a querer também mais voz e influência política. Sim, eles queriam mudar o mundo e criar uma sociedade supostamente melhor e mais justa. Foi nessa época que surgiram os primeiros artistas engajados e as letras passaram a conter mensagens políticas e ideológicas. Um dos maiores ícones dessa nova fase foi Bob Dylan.

Então, o rock se politizou. Artistas se engajaram em diversas causas, contra a guerra, pelos direitos civis e por aí vai. No Brasil, o rock combateu a ditadura, tendo o primeiro Rock in Rio, em 1985, sido realizado coincidentemente com a posse do primeiro presidente civil depois de duas décadas de presidentes militares.

Mas, engana-se quem pensa que o Rock tem ideologia definida. O Rock não tem ideologia. O Rock é apenas um instrumento de propagação de ideias. Na verdade, quem tem ideologia são os artistas, que usam sua arte para disseminarem suas ideias e pensamentos. Na verdade, o Rock pode servir de voz para diversas causas. O Rock já combateu regimes de direita, como a ditadura militar no Brasil, mas também regimes de esquerda, como a ditadura comunista da União Soviética. Roger Waters e seu The Wall, celebraram a queda do muro de Berlim, num concerto histórico naquela cidade após a guerra fria.

Muitas vezes, por trás da ideologia estão interesses pessoais dos artistas e o desejo de ganhar espaço na mídia. John Lennon, apesar de demonstrar suas ideias socialistas em músicas como Imagine e tantas outras, foi morar dos EUA para fugir de seus problemas na Inglaterra e declarou seu amor a Nova York, onde residiu até o fim da sua vida.

De fato, nem sempre o que o artista canta está em sintonia com seu comportamento. Na verdade, estar em uma cidade capitalista e cosmopolita, considerada o centro do mundo, como Nova York, é fundamental para um artista que busca fama. E a fama é o que todo artista deseja porque ele vive dela e do seu público! Artistas que renegam tudo isso morrem pobres e não era bem isso que John Lennon queria.

Durante os anos 80 o Rock pediu pela liberdade de Nelson Mandela e foi contra o Apartheid. Os roqueiros se mobilizaram para combater a fome na África, mas também algumas de suas vertentes passaram a celebrar o demônio e incitar a violência. O Rock passou a ser tanto o som da paz quanto da guerra. Pode promover a igualdade, como também a exclusão. Pode lutar pelas minorias, pela causa gay e ser feminista, da mesma forma que pode ser racista, machista e homofóbico. O rock pode ser trilha sonora de grupos radicais, e existem várias vertentes que estimulam isso.

O Rock portanto é democrático. Você ouve o que quer e o que gosta. Pode cultuar Deus ou o diabo. Pode falar de amor ou gerra. Pode ser de direita ou esquerda porque a força do Rock não está naquilo que ele defende ou está engajado. A força do Rock reside na sua energia e no impacto da sua sonoridade. Uma guitarra bem tocada pode te levar a relaxar e te conduzir ao paraíso, da mesma forma que pode te excitar e te conduzir ao inferno. A única coisa que o rock quer é te proporcionar a liberdade de você ser aquilo que você quer ser.

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