Entrevista com Paulo Vanzillotta da Banca do Blues

O dono da extinta Banca do Blues bate um papo com gente, conta porque ela acabou, e porque o Blues não faz sucesso no Brasil.


Paulo Vanzillotta, dono da extinta e saudosa Banca do Blues bate um papo com a Rio Rock & Blues Club Magazine, e explica as razões que levaram ao fechamento da banca de revistas que se tornou uma referência no cenário do blues na cidade e porque o Blues não emplaca no Brasil.

Rio Rock & Blues Club Magazine – O que levou a Banca do Blues a encerrar suas atividades?

Paulo Vanzillotta – Para responder melhor a pergunta é necessário contar um pouco da minha própria história.
Sou filho de Italiano, e a grande maioria deles, que imigraram no pós guerra, exerceram no Brasil a profissão de jornaleiro.

Embora eu seja bacharel em Direito, optei por prosseguir com o trabalho iniciado pelo meu Pai, por gostar muito do comércio, bem como por razões financeiras.

Em 1993 comprei a banca na esquina da Av. Rio Branco com Av. Presidente Wilson e não medi esforços para melhorar o ponto, bastante enfraquecido pelo antigo proprietário, que já era bem idoso.

Foram anos de muita dedicação e trabalho, e lógico, os resultados foram aparecendo.

No início, a banca media apenas 6m², mas em 2005 consegui autorização da Prefeitura para aumentar para 18m², isso alavancou as vendas e me possibilitou, um ano mais tarde a fazer os eventos musicais.

Ser empreendedor no Rio de Janeiro é muito difícil, a administração pública é altamente burocratizada e interfere demais na livre iniciativa dos pequenos e micro empresários.

Em janeiro de 2016, por determinação do ex Prefeito, Eduardo Paes, vinte e cinco bancas de jornais, que ficavam no lado esquerdo da Av. Rio Branco, tiveram que ser realocadas em outros endereços.

Imagine você ter um ponto comercial há 20, 30, 50 anos e de uma hora para outra ter que se mudar?
No meu caso tive que deslocar a banca alguns metros para dentro da Av. Pres. Wilson e mandar fazer uma nova banca, com apenas 5m².

As consequências foram desastrosas.

Vi meu faturamento, que já estava seriamente abalado pelas obras no Centro, aliado ao momento econômico ruim, despencar cerca de 80%.

Ainda resisti por mais um ano e meio, na esperança do quadro melhorar, mas como é sabido por todos, o Rio de Janeiro está falido e infelizmente não tinha como prosseguir na jornada.

Foram quase 25 anos de muito trabalho, suor, dedicação e conquistas, das quais tenho muito orgulho.

RRBCM – Como surgiu a idéia de criar um espaço dedicado ao blues num formato inusitado de uma banca de jornais?

PV – A ideia foi de um músico húngaro, Jolt Telek.

O Jolt é um cara que rodou o mundo inteiro, cantando e tocando principalmente o Blues.

Certo dia ele pintou lá na Banca, puxou assunto sobre música (minha conversa preferida) e fez a seguinte pergunta:

Que tal a gente fazer um som em frente a sua Banca?

Achei o papo meio louco…ele voltou lá algumas vezes e insistiu no assunto.

Um dia eu acabei topando, achando que não daria em muita coisa.

Começamos bem na informalidade, eu e minha parceira na “produção”, Denise do Amaral, pouco sabíamos sobre fazer eventos musicais, mas com a ajuda de amigos fomos aprendendo e desenvolvendo o projeto.

Em pouco tempo estávamos com estrutura de uma pequena casa de shows, com PA, bateria, amplificadores e instrumentos.

Em três anos realizamos 99 shows, recebendo músicos cariocas, mineiros e paulistas, gente renomada no cenário bluseiro, como Big Gilson, Claudio Bedran e Pedro Strasser (Blues Etílicos), Big Joe Manfra, Jefferson Gonçalsves e Sergio Rocha.

Infelizmente, ao assumir a Prefeitura em 2009, Eduardo Paes (sempre ele), suspendeu a autorização que seu antecessor, Cesar Maia, nos concedeu, encerrando assim um ciclo que movimentou o cenário cultural do Rio de Janeiro, que não usava dinheiro público, sem patrocínio, apenas com a disposição dos seus produtores e músicos aliados.

Uma pena, mas cumprimos nossa missão.

RRBCM – Na sua opinião, o blues no Brasil, estará sempre restrito à poucos apreciadores ou este quadro pode mudar?

PV – Sinceramente já participei de muitas discussões sobre o assunto e ouvi muitas opiniões.

Particularmente creio que o principal motivo do Blues não ser popular no Brasil é o fato da grande maioria das bandas optarem por cantar em Inglês, visando algum reconhecimento em nível internacional.

Não acho que estejam errados, mas isso acaba segmentando um pouco o estilo, já que nem todos entendem outra língua.
Quem é nosso maior nome no Blues?

Celso Blues Boy!

E ele fazia letras em português.

Falava de bebidas e mulheres, mesma temática do Blues americano, mas o “sotaque” brazuca aproximava o músico da nossa realidade, e isso o fez popular.

Claro que devem existir muitos outros fatores, mas um deles, certamente passa pelo idioma.

RRBCM – Você consegue ver novas bandas surgindo neste cenário? Citaria alguma(s)?

PV – É sabido que para se chegar ao Rock, é imprescindível passar pelo Blues.

Vez por outra surgem boas bandas que usam o estilo, pelo menos como referência.

A que mais me chamou atenção nos últimos anos foi a Facção Caipira.

Eles participaram do “Superstar”, na TV Globo, mas bem antes já despertavam a minha atenção e admiração.

São muito talentosos e fazem uma mistura muito interessante

Como eles mesmo se definem: “A tradição do blues sulista americano pega a estrada do rock rural brasileiro e do folk nordestino. É o Blues Brasileiro Foragido Americano.”

Vale a pena conferir!

RRBCM – Quais são seus projetos daqui pra frente?

PV – Após a proibição da prefeitura em realizar os eventos em frente a Banca do Blues fiz várias produções em casas do Rio de Janeiro.

Botequim Vaca Atolada, Severyna, Bistrô Santa Rita, La Esquina da Lapa, além de 25 shows no icônico Teatro Rival, algo que tenho muito orgulho.

No total fui produtor em cerca de 250 shows, mas confesso que o atual cenário da economia e cultura no Rio de Janeiro não me entusiasmam em prosseguir na estrada.

Ao encerrar as atividades da Banca do Blues, pelos motivos já expostos, mudei de ramo e minhas novas atribuições me tomam quase todo o tempo, dificultando assim que eu consiga fazer produções com o capricho que elas merecem.
Então, por ora, me considero de “férias”.

RRBCM – Algum recado para os orfãos da Banca?

PV – O recado, vem em forma de agradecimento.

Fiquei muito feliz com as demonstrações de carinho pela Banca do Blues e pelo trabalho que desenvolvemos por lá.

A Banca do Blues não era apenas o Paulão, e sim todos aqueles que um dia saíram de suas casas, seja para assistir ao evento, seja para tocar o Blues e o Rock.

Creio que nossa missão foi cumprida.

Hoje em dia, quando vejo os Beach Combers, a Astro Venga e outras bandas tocando nas ruas, defendendo sua arte, sinto que tenho um pouco de “responsabilidade” por aquilo também.

Antes da Banca do Blues, pouquíssimos artistas se arriscavam em fazer um som com tanta informalidade, algo que se tornou comum.

Assim sendo, apesar de ter encerrado as atividades da Banca do Blues, sei que ela faz parte da história cultural carioca e princialmente:

Está viva na memória dos seus amigos e frequentadores.

Só posso mesmo dizer: Muito Obrigado!

Um comentário em “Entrevista com Paulo Vanzillotta da Banca do Blues

  • 13/10/2017 em 11:08
    Permalink

    O problema do Blues em português é a métrica, poucos pegam o time certo, geralmente ficam indo atrás dos instrumentos, mas o certo é os instrumentos irem atras da voz…

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