Hollywood Rock 1975, o Festival esquecido.

Por Antonio Gomes Lugar: Rio de Janeiro – Verão Ano: 1975 Cenário: Roqueiros paz e amor  x  Regime Militar Você


Por Antonio Gomes

Lugar: Rio de Janeiro – Verão

Ano: 1975

Cenário: Roqueiros paz e amor  x  Regime Militar

Você é um garoto como tantos outros com seus 18 anos, cabelos compridos, calça boca de sino, camiseta Hang Ten, e está eufórico com a aproximação de um festival de rock, que promete reunir a nata do rock brasileiro, Mutantes, Rita Lee & Tutti-Frutti, Erasmo Carlos, Vímana, Raul Seixas, O Peso, O Terço, entre outros.

Você leu nas poucas notícias divulgadas, que o evento acontecerá pertinho da sua casa, logo ali, no campo do Botafogo, na Rua General Severiano e, óbvio que você vai fazer de tudo pra estar lá.

Também leu que ele está sendo produzido por Nelson Motta, que é um dos poucos jornalistas de peso, que se interessam em divulgar o rock no Brasil, além do maluco do Big Boy, que mantém a chama acesa, com seu programa de rádio.

Você tem dois obstáculos à vencer: primeiro convencer seu velho a liberar a grana pro ingresso ( coisa difícil, já que ele condiciona tudo a você cortar o cabelo comprido ); o segundo é ver se de fato vai acontecer, já que os militares não vêem com bons olhos qualquer tipo de manifestação que reúna mais de duas pessoas, seja ela qual for, com excessão dos jogos de futebol.

***

Enfim, você conseguiu comprar o ingresso para um dos dias, já que o festival acontecerá em quatro sábados do mês de Janeiro, e o melhor, com os cabelos íntegros, visto que a grana veio da sua querida avó, que não entende nada de rock, mas faz qualquer coisa pelo neto favorito.

O entorno do campo do Botafogo está tumultuado, já que a quantidade de pessoas, algo por volta de 10 mil, segundo o Nelson Motta estimou por dia, logo depois do término do Festival, não é compatível as ruas que cercam o local dos shows.

A polícia, com cara de poucos amigos e expondo ameaçadoramente seus cassetes e cães, ainda não entendeu como as autoridades deixaram essa “porcaria de maconheiros e hippies” realizarem o Festival.

Passado a entrada, você corre para se posicionar o mais próximo do palco. De lá você pode ver o enorme arco luminoso sobre o palco, com o nome do evento “ Hollywood Rock”.

É, uma marca de cigarro patrocinando um festival de rock… Talvez por isso as coisas foram liberadas sem muita burocracia.

Enfim, sorte sua, o seu ingresso é para o dia do show da Rita Lee…..Uau, ela está ali, gata pra caramba, vestida de dourado dos pés a cabeça, cabelos laranja, quase um Bowie tupiniquim e com um Tutti-Frutti tocando pesado. Ok que o som não está tão claro assim, mas pra você isso é um detalhe menor, afinal é o seu primeiro festival de rock.

Ah, você repara que tem uma outra garota na guitarra, aliás bem interessante, e que depois você descobriu o nome, Lúcia Turnbull. Você nunca tinha visto uma garota tocando guitarra.

Seus olhos brilham com o que vê, sim, música, rock, e um monte de gente feliz.

Ah, como é bom ter 18 anos e poder ver isto acontecendo.

Hollywood Rock!!

Pelo que ouvi falarem, ano que vem tem mais. Tô dentro.

 

N.A. Infelizmente, o Hollywood Rock de 1975 foi o único que ocorreu nos anos 70. O patrocinador não se interessou em bancar outras edições e dificuldades econômicas e burocráticas, impediram outras edições, que só voltariam a ocorrer, e aí sim de forma oficial, a partir de 1988, com um breve hiato até 1990.

A partir de 1992, o Hollywood Rock retornou de vez, anualmente até 1996, entre o eixo Rio/São Paulo, quando encerrou suas atividades.

Da edição de 1975 restou um documentário “Ritmo Alucinante” e um disco, que na verdade tratava-se de músicas de estúdio de alguns participantes, mixadas com sons de plateia para parecer ter sido gravado ao vivo.

 

*Antonio Gomes é editor da Rio Rock & Blues Magazine e só não esteve na edição de 1975 porque tinha 14 anos, mas esteve em todas as outras.

 

 

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