Gustavo Schroeter exclusivo

Gustavo Schroeter, baterista da Cor do Som e tantos outros, conta para a Rio Rock & Blues Club Magazine seu começo e outras histórias hilárias.


Por Antonio Gomes

Foto:Bolívia & Cátia Rock

Lobão em seu livro “Guia Politicamente Incorreto dos Anos 80 pelo Rock”, quando cita em um trecho ”Gustavo Schroeter, que tocou com meio mundo da cena brasileira”, nada mais faz do que registrar a História.

Gustavo Schroeter, baterista que passou pelo hard rock psicodélico da Bolha, pelo progressivo do Veludo, pelo rock and roll de Raul Seixas e Erasmo Carlos, pelo samba esquema novo de Jorge Ben, pela mistura genial de Moraes Moreira, pelo som instrumental brejeiro, depois vocal, da Cor do Som, pelo místico som de Zé Ramalho, entre tantos outros.

A proposta de fazer uma entrevista formal, do tipo pergunta e resposta, com Gustavo foi por água abaixo nos primeiros cinco minutos. Gustavo não é só uma máquina de tocar bateria, é também uma máquina de falar pelos cotovelos.

E isso, graças a Deus, foi maravilhoso!!

Gustavo Schroeter talvez seja um dos raros músicos que gostam de falar, contar detalhes, checar as datas e fazer a alegria do entrevistador, e não ficar naquela coisa monossilábica do quase, sim/ não.

Por isso, a entrevista acabou não acontecendo da maneira pensada, mas proporcionou ouvir a sua história e parte da história do rock brasileiro, na sua hilária narrativa.

Então, sem mais nem menos, deixa o homem falar.

“É uma evolução natural, o cara que quer ser músico, tem que saber tocar a porra toda. Eu sou roqueiro? Roqueiro é o caralho. Se ficar rotulado de roqueiro, ninguém vai te chamar pra nenhum outro trabalho.”
*Sobre ser considerado um dos melhores bateristas de rock do Brasil

“Eu comecei a estudar bateria por volta dos 15 anos, com um vizinho meu, ainda na época em que eu estudava no Pedro II, no Humaitá, aonde também morava. Este vizinho, que se chamava Robertinho, tocou numa banda chamada The Youngester, que acompanhou vários nomes da Jovem Guarda, incluindo Roberto Carlos e fez várias apresentações no então recém inaugurado Canecão. Ele morava no terceiro andar e eu no oitavo.

Ele cismou de dar aula de bateria pra garotada toda da rua, uns 30. Depois de dois meses, só sobrou eu, rsrsrs. Como ele achava que eu levava jeito, foi me ensinando cada vez mais.

Como eu não tinha bateria, improvisava com a mobília da minha mãe, o sofá era o surdo, a cadeira era a caixa e por aí ia.”
*Sobre como começou a tocar bateria

“ No final de 1966, eu já havia tomado gosto pela coisa e comecei a encher o saco da minha mãe pra que ela me comprasse uma bateria. Perdi meu pai com 13 anos e minha mãe segurava sozinha a onda de uma casa com cinco filhos, ok, com a ajuda de uma empregada que não aguentava o tranco, rsrsrs…além de trabalhar como funcionária pública federal do IAPI.

Tenho que tirar o chapéu pra ela, dando conta de criar cinco filhos e ainda dando força pra mim, comprando a bateria sabe lá como, em janeiro de 1967, na antiga Casa Clarim, que eu instalei no meio da sala, para o desespero dos vizinhos, rsrsrsrs.”
*Sobre como ganhou sua primeira bateria

“Pra evitar a reclamação dos vizinhos, comecei a cobrir a bateria com lençóis, e o som saia baixinho, abafado, igual as baterias eletrônicas. Inventei a bateria eletrônica , rsrsrsrs.”
*Sobre como evitar reclamações dos vizinhos.

“A primeira banda em que toquei, à princípio, por ser o único cara num raio de 20 quilometros a possuir uma bateria, independente de saber tocar ou não, rsrsrs, foi a Blackfoot.

Era uma banda formada por um pessoal da área do Catete e Flamengo, e quem me convidou foi o vocalista, um cara mais velho chamado Marquito.

Dali eu parti pra tocar em bailes com eles, assim de prima. Tudo bem que eu tocava antes com uns garotos do prédio, mas nada pra valer. Com o Blackfoot era diferente, eu tinha que aprender as músicas que tocavam no hit parade americano, sucessos brasileiros, no Carnaval tocar marchinhas, era algo assustador e eu tendo que me virar, ouvindo os LPs pra tirar os detalhes e confiando no meu dom. Por isso que eu digo que a minha escola foram os bailes e aonde eu decidi ser músico.”
*Sobre seu início profissional como músico e dando adeus ao futuro curso de Engenharia.

“Tocar em banda de baile era tocar em tudo que era lugar, zona sul, zona norte, não tinha diferença. Chegamos a tocar no Canecão, em 1968.

Mas aí eu tomei gosto pelo rock and roll, Beatles, Stones , Hendrix, etc etc, e resolvi que não queria mais tocar em baile. O difícil era comprar disco, rsrs, aí tinha que apelar pra mamãe dar uma grana, rsrsrs.

Aconteceu que uma menina, Miléia, entrou para a Blackfoot, para tocar teclado ( ela tinha um Farfisa, que todo mundo queria, mas só ela tinha ), e que conhecia o pessoal de uma banda chamada The Coogars, que fazia a mesma linha dos Analfabitles, The Bubbles, só que menos famosa. Como o baterista deles saiu da banda, ela me indicou. E foi aí que eu comecei a conhecer a galera do rock underground. Pouco depois, a mesma coisa, o baterista dos Bubbles saiu, pois tava mal na escola e o pai cortou a história, e o pessoal, que já me conhecia me chamou. Foi assim que eu entrei para os Bubbles, que era o meu sonho, já que eu ainda moleque dizia sempre que assistia a eles, “ eu vou tocar nesta banda.”
*Sobre como foi que ele se tornou baterista dos Bubbles.

“ Nessa época os Bubbles viraram a Bolha, mas depois de um tempo as apresentações começaram a rarear e eu fui morar na casa do nosso empresário no Rio Comprido. Ele pagava metade do aluguel, a banda pagava a outra, eu já tava casado, com filho pequeno, uma dureza. E foi aí que o Raul Seixas me chamou pra tocar com ele, através do Milton Botelho, que era o baixista da banda dele. Cara, eu nem dormi, um susto do caralho.”
*Sobre como foi seu ingresso na banda de Raul Seixas.

“ Eu pensei: “ Tô fudido, casado, a Bolha não vai pra frente”, no meio do período da Ditadura, a gente fazia altas letras e voltava tudo censurado. Aí, eu larguei tudo e fui tocar com o Raul.

Foi ingenuidade da minha parte, afinal eu poderia conciliar as duas coisas, já que o Raul, mesmo no auge do sucesso, ele não queria sair por aí tocando direto, ficava minimizando os shows. E eu pensando, que merda, aonde eu amarrei meu bode, afinal, sem show, sem cachê. Mas ainda assim, pintava um dinheiro pra pagar aluguel, as contas e eu sai da Bolha e fui ficar com o Raul.”
*Ainda sobre sua fase com Raul Seixas.

“Passei dois anos morando no Rio Comprido, ilhado, naquela época não tinha internet, celular, parecia que eu vivia num outro mundo. Ora tocava com o Raul, ora com o Veludo. Aí, em 1975, eu saio de lá e vou morar no Joquey, num apartamentinho, junto da pracinha.
E então voltei a frequentar a praia do Arpoador e acabei me encontrado com o Dadi, que tinha sido baixista dos Novos Baianos. Vai então que ele me fala que o Moraes Moreira tinha saído do grupo, tava gravando o primeiro disco solo e precisando de um batera.
Aí o Moraes juntou o Dadi, eu, chamou um tal de Armandinho ( eu nunca tinha ouvido falar em Trio Elétrico ), rsrsrsrsrs…mas o cara era bom pra caralho, e o irmão mais novo do Dadi, o Mu, que tocava piano e acabou tocando em duas músicas deste disco.”
*Sobre como surgiu o embrião da Cor do Som.

“Logo em seguida, o Dadi me chamou pra tocar com quem?? Com o Jorge Ben. E volta a repetir a mesma história, o baterista do Jorge era “rato de estúdio”, não queria saber de viajar. Melhor pra mim, rsrsrsrs.

E eu tenho que agradecer muito ao Dadi. Eu tava na merda e ele me colocou pra tocar com o Moraes e logo depois com o Jorge Ben. Parceiro mesmo.

Com um mês tocando com o Ben, eu fui parar em Paris, tocando no Olympia. Gravamos um disco ao vivo lá.
Aí o Jorge veio com ideia de batizar o grupo como Admiral Jorge V, por que George V era o nome do hotel onde ele ficava, rsrsrsrs. Ele era maluco kkkkkkk.

E o ciclo vai se fechando com a música brasileira voltando até mim, que havia começado tocando de tudo (rock, pop, samba, marchinha etc etc) em banda de baile.”
*Sobre como foi tocar com Jorge Ben, Moraes Moreira e sua volta às raízes brasileiras.

“Da convivência com o Armandinho nas gravações do Moraes é que a gente começa a fazer um som instrumental, mas com uma característica bem brasileira, no meio do show do Moraes, quando ele saia do palco e ficava só a gente.

Aí a gente grava o primeiro disco, como Cor do Som, todo instrumental, e logo depois o Armandinho traz o Ari Dias, que era baterista do Trio Dodo e Osmar, que não participou do primeiro, mas do segundo disco em diante, pra tocar na banda. Era pra ele ser o baterista, mas como eu já tava lá, o Ari acabou entrando como percussionista, que era uma coisa diferente numa banda brasileira instrumental. E é um cara com eu tenho uma grande afinidade já de muito tempo, um cara muito legal.”
*Sobre o início da carreira da Cor do Som.

“O segundo álbum da Cor do Som foi gravado em Montreux, durante o nosso show no festival de lá. E foi a oportunidade que eu tive de ver uma das minhas influências ao vivo, ali de perto, o Buddy Rich (N.E. um dos mais lendários e influentes bateristas americano de jazz), o cara era sensacional e eu ali, babando, algo inesquecível. Além dele, já em 1968, eu ouvia na casa dos meus pais o Gene Krupa (outra lenda do jazz), e tantos outros que me influenciaram.

Tiveram outros como, Billy Cobham da Mahavishnu Orchestra, John Bonham, Bill Bruford, e brasileiros o Robertinho Silva, Ivan Conti (Mamão), Pascoal Meireles entre outros.

Todos eles fizeram a minha cabeça e moldaram o meu estilo, essa mescla de rock, samba, jazz etc etc.”
*Sobre os bateristas que fizeram sua cabeça.

“Ah, tenho que falar de uma outra experiência mágica e emocionante.

Convenci minha mãe a pagar uma viagem para os Estados Unidos, coitada, financiou isso em 12 meses, ainda na época dos Coogars, numa excursão daquelas de estudantes e acabei assistindo o Steppenwolf, num show em Jacksonville.

Os caras em 1968 estavam no auge e a organização da excursão querendo levar a gente pra assistir “Os cantores da igreja do sei lá o quê”, e eu falando, “minha filha!?!, Steppenwoff!!, ”cê” não tá entendendo, kkkkkkk”. Acabou que dividiu a excursão e metade foi ver os cantores da igreja e a outra, o Steppenwolf.

Cara, babei, acabou o show e eu lá em êxtase pensando “fodeu, que quê eu faço da minha vida, achei o que eu quero, rsrsrs”. Dessa viagem eu trouxe também aquele disco vermelho do Grand Funk (conhecido como Red Album), que foi fundamental pra mim.”
*Sobre a emoção de ver uma banda gringa, no auge, “in loco”.

Gustavo não é só uma lenda do rock brasileiro, é também um camarada super simpático e atencioso, não sonegando informações ou curiosidades, ou seja, tudo aquilo que faz a alegria dos seus fãs. E eu sou um.

*Antonio Gomes é Editor da Rio Rock & Blues Club Magazine e assistiu a Bolha, em 1976 (infelizmente já sem o Gustavo), no antigo Teatro Tereza Raquel.

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