O Fim dos Dinossauros

Nos últimos cinco anos, o rock vem dando mostras de que uma era está chegando ao fim. Talvez para alguns


Nos últimos cinco anos, o rock vem dando mostras de que uma era está chegando ao fim.

Talvez para alguns a Era de Ouro do rock ( para mim, com certeza) já tenha passado e seus últimos ícones ainda caminhando sobre a Terra, estão começando a buscar o seu merecido descanso.

E como o tempo é inexorável, as perdas vão se avolumando com o passar dos anos. Bowie, Prince, Glenn Frey, Lemmy, Joe Cocker, fora tantos outros que também se foram, já estão em outro plano fazendo-se lá o que, enquanto que ainda aqui, Elton John, Slayer, Rush, Lynyrd Skynyrd e nesta semana Paul Simon, anunciaram sua aposentadoria, só no primeiro mês de 2018.

É fato, e todos nós sabemos, que este momento chegaria, quando as grandes lendas começariam a se despedir de forma maciça, já que a idade, e também o preço dos excessos, começaria a bater na porta, cobrando sua fatura.

A tendência dessa lista aumentar é tão real quanto o Sol que brilha todos os dias, e triste. Deep Purple está numa turnê de despedida, ainda que não oficial, O Black Sabbath já disse adeus restando agora o definitivo de seu frontman, Ozzy, que estará excursionando pela última vez agora em 2018.

E porque todo este adeus mexe tanto com os fãs do rock em geral?

Simplesmente porque todo o conceito de lendas, míticos, surgiu com esta geração. Com Beatles, Stones, The Who, Yes , Led Zeppelin e tantos outros que vem encerrando suas atividades ou estão em vias de.

A visão de gigantes grandiosos se encerrou neles. Por mais que se tente dar esta mística a bandas como Metallica, Guns and Roses ou U2 ( que talvez seja o último dinossauro, talvez ), elas estão longe de terem a mesma importância, pois não basta apenas a qualidade de suas obras. Existe também um fator que nunca mais se repetirá, uma época.

As décadas de 60 e 70 foram anos em que tudo estava sendo criado, e a falta de proximidade com as bandas, o anseio pelo próximo álbum, a expectativa deliciosa de se ouvir pela primeira vez uma nova música, junto com os amigos num quarto bagunçado de adolescente com os pais reclamando do som alto, tudo isso criou a mística, que transformou estes artistas em seres quase divinais, mas que também produziam excelente música.

Com o avanço da internet, a possibilidade de acessar qualquer música com um simples clique, a excessiva proximidade dos artistas, e consequentemente um desinteresse tão rápido também, pois tudo tem que ser instantâneo, imediato, acabou por liquidar o fascínio que as atuais bandas poderiam despertar no mesmo grau que no passado se havia.

Basta ver a indiferença, quando uma enorme parcela das pessoas que aparecem em shows ou festivais, estão mais interessadas em acessar suas redes sociais e divulgar onde estão, do que realmente apreciar e desfrutar o que o “seu artista favorito”(?), está tocando. Não há mais esta relação de descoberta.

Para nós que já passamos dos cinquenta, e curtimos cada sulco de um vinil com paixão, cada perda ou retirada de cena, é como se estivéssemos presenciando também a nossa solidão futura.

Não haverá mais gigantes, dinossauros, semideuses.

Só nos irá restar os velhos álbuns de recordações, de excelentes recordações.

 

*Antonio Gomes é Editor da Rio Rock & Blues Club Magazine e também um velho rabugento, saudosista e muito bem resolvido com isso.

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